27 de outubro de 2005

O Guardador de Rebanhos

"O meu olhar é nítido como um girassol,
Tenho costume de andar pelas estradas,
Olhando para a direita e para a esquerda
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para eterna novidade do mundo... Creio no mundo como um malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender... O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."
Fernando Pessoa

18 de outubro de 2005

Não te quero nada, apenas quero o que tu quiseres

Não, não te quero mal... Não, não tenho segundas intenções... Quero-te bem, quero-te como te quiseres... Não te quero para mim, não te quero perto... quero-te onde te quiseres. Com meias palavras e longe, não te consigo escutar, não te consigo ouvir. Chega-te mais perto... ouve-me com atenção. (Se quiseres perceber, ou se for essencial perceberes! ) Não te vou pisar!

12 de outubro de 2005

Os Argonautas

O barco, meu coração não aguenta tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta o dia, o marco, meu coração o porto, não
Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso
O barco, noite no teu tão bonito
Sorriso solto, perdido
Horizonte madrugada o riso, o arco da madrugada, o porto, nada
Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso
O barco o automóvel brilhante o trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento o porto, silêncio
Navegar é preciso, viver não é preciso...
Caetano Veloso

10 de outubro de 2005

Que há-de ser de nós?

Que há-de ser de nós? Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento.
Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia p´la foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós.
Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã.
Reencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós.
Já enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos.
Já cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura
que será, que foi
quanto é, quanto dura
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós.
Sérgio Godinho Ivan Lins porque me invade um sentimento de revolta enorme e do que há-de ser de mim e o que há-de ser de nós, porque não entendo hoje, nem vou entender amanhã, porque é que passei, demasiado, tempo a carregar uma culpa, uma pena determinada (afinal) por mim... não vais perceber, nem hoje, nem nunca... porque eu! vivi demasiado tempo enganada por mim própria... e apesar disto tudo...acredito mto pouco em tudo o que vivi!

9 de outubro de 2005

Há coisas que me enervam de uma maneira brutal... passo a enumerar:
  • Agir sem pensar ou pensar demasiado antes de agir;
  • Falar sem pensar ou pensar e não falar;
  • Cometer duas vezes o mesmo erro;
  • O medo de falhar ou a certeza de falhar;
  • Renunciar coisas só porque nos dizem que são más, ou que não são boas;
  • Fazer só por fazer;
  • Viver as realidades dos outros acreditando que é a sua própria realidade;
  • Julgar e condenar... dormir e passar!